segunda-feira, 2 de junho de 2008

.Gaivotas em Fundo Laranja #11

Gaivotas em terra, tempestade no mar diz o povo e no bairro vivo essa verdade. Principalmente neste ano. O tempo chuvoso e constante baixa atmosférica trás estas aves para terra. Cá no alto da rua da Atalaia vêem-se bem estes planadores reais que por um dia de cada vez vão ganhando a batalha aos ratos do ar. O que odeio nos pombos, adoro nas gaivotas. Não é por acaso que a gaivota mais bela que vi foi de facto uma gaivota que no alto de uma chaminé exprimia todo o seu esplendor com um detalhe sublime. Escondia a sua cabeça para depois a mostrar, hirta como que se estivesse a controlar. Um olhar mais atento confirmou o seu ar de alerta. Tinha o bico vermelho de sangue e aquela altura era claro o que degustava -um pombo. Exceptuando este episódio mais carnívoro, apenas digo que as vi planar em muitas manhãs, as ouvi no seu chilrar de quem está mais habituado a um mundo mudo.
O nevoeiro matinal é mais uma coisa que conheça de Belém que do Cais do Sodré, mas mesmo assim há umas quantas manhãs em que o Tejo com a sua monumentalidade se vê inundado por um espesso manto branco. Nessas manhãs ouvem-se os barcos munidos dos seus radares a combaterem o seu receio com os seus majestosos buzinões. As chaminés industriais que ainda restam no bairro servem de vigia perfeita às aves brancas de bico amarelo.

.hoje há Férias! #10



Há férias! Corre o ano de 2006 e em início de Junho escolhi ficar uma semana de molho por Lisboa. Junho porque nesta semana se festeja o amor e a cidade e com ela o recomeçar das tardes a queimar ao sol e das noites temperadas por ventos quentes. O Verão está aí, em cada esquina em cada esplanada, em cada mesa de esplanada servida em copos gelados de imperial.
Escolhi esta semana, e acredita que foi consciente, porque se inicia o certame da adoração da bola -Campeonato do Mundo e Portugal desta feita joga cartada à séria. Amo a bola, como amo a cidade de Lisboa, quer isto dizer que há alguma explicação para estas paixões, mas que as mesmas por vezes parecem desprovidas de racionalidade. Nasci num bairro de bola onde a mesma rolava de manhã à noite e se acaso estivesse de chuva o tempo então esticávamos o pano com o ferro de engomar e jogávamos Subuteo de gatas. Jogávamos com a mesma paixão na ponta dos dedos como na rua chutávamos o catechu com os ténis. Fazíamos pequenos placares onde anunciávamos a Tudor, a FNAC e outras empresas que patrocinavam a bola nos anos oitenta, colocávamos candeeiros de escritório a fingir de iluminação de estádio para que cada jogador tivesse quatro sombras como no Estádio das Antas, Alvalade ou Luz. Não nasci louco por bola, influenciaram-me! E ainda bem. Mas corre o ano de 2006. Num fim de manhã saio porta fora de t-shirt calção preto e flip-flops e na esquina compro a bola. Hoje começa a festa. A Alemanha, minha segunda pátria abre os jogos caseiros e escolhi ver o jogo pelo bairro. Café e A bola debaixo do braço vou troteando a calçada abaixo numa calma escondida, reservo a excitração para o folhear das páginas coloridas e timbradas por fotos imensas e texto escasso para o momento de mesa. Preciso de uma mesa! O Sr José Carlos hoje está encerrado, porra. Vai daí escolho novo abrigo, ali defronte do Convento dos Inglesinhos que um dia hade ser um condomínio exclusivo e que agora é um imenso estaleiro, mas hoje não é dia de politiquices. Há ali um café de esquina, ensolarado que é coisa rara no bairro. Mesa à porta, meia sombra, meio sol até parece que estou na tourada. Como a hora é de almoço e hoje sou turista para não dizer preguiça, decido comer. Venham daí uns filetes de pescada com arroz de cenoura e uma saladinha. Esta meia hora a ler cuidadosamente a bíblia de um mundial é apenas comparável à véspera de Natal de um puto do 8 anos que já não acredita no Pai Natal mas que acredita profundamente em prendas. Foi um dia de deleite, o primeiro de 9 dias e noites dedicados à cidade de Lisboa, a andanças matinais ou madrugadoras pelas suas calçadas lindas. Tardes passadas ao sol, olhando aqui e ali o relógio para não perder o Costa do Marfim – Itália ou outro jogo qualquer. Noites ganhas a dançar em bailes preparativos de Santo António pelos becos de Alfama e Mouraria. Dançar o vira com uma moça de cabelos longos, uma delícia de copo de ginja entre os dedos partilhados.
Férias no bairro, são partidas para a praia pela manhã tardia e regressos com areia entre os dedos, ou tardes tranquilas perdidas em leitura estendido na relva fresca do Príncipe Real, um prazer a portas meias com a casa ensolarada. Em Junho é fácil demais passar uma semana perdida no bairro e sua periferia, faltando-me apenas a praia e nem saía de Lisboa por estes dias. [Folgadamente gozo a cidade no meu bairro tão belo, tão ansioso para que seja verão quente]