.Gaivotas em Fundo Laranja #11
Gaivotas em terra, tempestade no mar diz o povo e no bairro vivo essa verdade. Principalmente neste ano. O tempo chuvoso e constante baixa atmosférica trás estas aves para terra. Cá no alto da rua da Atalaia vêem-se bem estes planadores reais que por um dia de cada vez vão ganhando a batalha aos ratos do ar. O que odeio nos pombos, adoro nas gaivotas. Não é por acaso que a gaivota mais bela que vi foi de facto uma gaivota que no alto de uma chaminé exprimia todo o seu esplendor com um detalhe sublime. Escondia a sua cabeça para depois a mostrar, hirta como que se estivesse a controlar. Um olhar mais atento confirmou o seu ar de alerta. Tinha o bico vermelho de sangue e aquela altura era claro o que degustava -um pombo. Exceptuando este episódio mais carnívoro, apenas digo que as vi planar em muitas manhãs, as ouvi no seu chilrar de quem está mais habituado a um mundo mudo.O nevoeiro matinal é mais uma coisa que conheça de Belém que do Cais do Sodré, mas mesmo assim há umas quantas manhãs em que o Tejo com a sua monumentalidade se vê inundado por um espesso manto branco. Nessas manhãs ouvem-se os barcos munidos dos seus radares a combaterem o seu receio com os seus majestosos buzinões. As chaminés industriais que ainda restam no bairro servem de vigia perfeita às aves brancas de bico amarelo.
