segunda-feira, 2 de junho de 2008

.Gaivotas em Fundo Laranja #11

Gaivotas em terra, tempestade no mar diz o povo e no bairro vivo essa verdade. Principalmente neste ano. O tempo chuvoso e constante baixa atmosférica trás estas aves para terra. Cá no alto da rua da Atalaia vêem-se bem estes planadores reais que por um dia de cada vez vão ganhando a batalha aos ratos do ar. O que odeio nos pombos, adoro nas gaivotas. Não é por acaso que a gaivota mais bela que vi foi de facto uma gaivota que no alto de uma chaminé exprimia todo o seu esplendor com um detalhe sublime. Escondia a sua cabeça para depois a mostrar, hirta como que se estivesse a controlar. Um olhar mais atento confirmou o seu ar de alerta. Tinha o bico vermelho de sangue e aquela altura era claro o que degustava -um pombo. Exceptuando este episódio mais carnívoro, apenas digo que as vi planar em muitas manhãs, as ouvi no seu chilrar de quem está mais habituado a um mundo mudo.
O nevoeiro matinal é mais uma coisa que conheça de Belém que do Cais do Sodré, mas mesmo assim há umas quantas manhãs em que o Tejo com a sua monumentalidade se vê inundado por um espesso manto branco. Nessas manhãs ouvem-se os barcos munidos dos seus radares a combaterem o seu receio com os seus majestosos buzinões. As chaminés industriais que ainda restam no bairro servem de vigia perfeita às aves brancas de bico amarelo.

.hoje há Férias! #10



Há férias! Corre o ano de 2006 e em início de Junho escolhi ficar uma semana de molho por Lisboa. Junho porque nesta semana se festeja o amor e a cidade e com ela o recomeçar das tardes a queimar ao sol e das noites temperadas por ventos quentes. O Verão está aí, em cada esquina em cada esplanada, em cada mesa de esplanada servida em copos gelados de imperial.
Escolhi esta semana, e acredita que foi consciente, porque se inicia o certame da adoração da bola -Campeonato do Mundo e Portugal desta feita joga cartada à séria. Amo a bola, como amo a cidade de Lisboa, quer isto dizer que há alguma explicação para estas paixões, mas que as mesmas por vezes parecem desprovidas de racionalidade. Nasci num bairro de bola onde a mesma rolava de manhã à noite e se acaso estivesse de chuva o tempo então esticávamos o pano com o ferro de engomar e jogávamos Subuteo de gatas. Jogávamos com a mesma paixão na ponta dos dedos como na rua chutávamos o catechu com os ténis. Fazíamos pequenos placares onde anunciávamos a Tudor, a FNAC e outras empresas que patrocinavam a bola nos anos oitenta, colocávamos candeeiros de escritório a fingir de iluminação de estádio para que cada jogador tivesse quatro sombras como no Estádio das Antas, Alvalade ou Luz. Não nasci louco por bola, influenciaram-me! E ainda bem. Mas corre o ano de 2006. Num fim de manhã saio porta fora de t-shirt calção preto e flip-flops e na esquina compro a bola. Hoje começa a festa. A Alemanha, minha segunda pátria abre os jogos caseiros e escolhi ver o jogo pelo bairro. Café e A bola debaixo do braço vou troteando a calçada abaixo numa calma escondida, reservo a excitração para o folhear das páginas coloridas e timbradas por fotos imensas e texto escasso para o momento de mesa. Preciso de uma mesa! O Sr José Carlos hoje está encerrado, porra. Vai daí escolho novo abrigo, ali defronte do Convento dos Inglesinhos que um dia hade ser um condomínio exclusivo e que agora é um imenso estaleiro, mas hoje não é dia de politiquices. Há ali um café de esquina, ensolarado que é coisa rara no bairro. Mesa à porta, meia sombra, meio sol até parece que estou na tourada. Como a hora é de almoço e hoje sou turista para não dizer preguiça, decido comer. Venham daí uns filetes de pescada com arroz de cenoura e uma saladinha. Esta meia hora a ler cuidadosamente a bíblia de um mundial é apenas comparável à véspera de Natal de um puto do 8 anos que já não acredita no Pai Natal mas que acredita profundamente em prendas. Foi um dia de deleite, o primeiro de 9 dias e noites dedicados à cidade de Lisboa, a andanças matinais ou madrugadoras pelas suas calçadas lindas. Tardes passadas ao sol, olhando aqui e ali o relógio para não perder o Costa do Marfim – Itália ou outro jogo qualquer. Noites ganhas a dançar em bailes preparativos de Santo António pelos becos de Alfama e Mouraria. Dançar o vira com uma moça de cabelos longos, uma delícia de copo de ginja entre os dedos partilhados.
Férias no bairro, são partidas para a praia pela manhã tardia e regressos com areia entre os dedos, ou tardes tranquilas perdidas em leitura estendido na relva fresca do Príncipe Real, um prazer a portas meias com a casa ensolarada. Em Junho é fácil demais passar uma semana perdida no bairro e sua periferia, faltando-me apenas a praia e nem saía de Lisboa por estes dias. [Folgadamente gozo a cidade no meu bairro tão belo, tão ansioso para que seja verão quente]

quinta-feira, 29 de maio de 2008

.há farra no Bairro #9

Não é excepção e já nem se restringe ao fim de semana. Hoje volvidos mais de 20 anos em que o Bairro Alto tem estado sempre em crescimento e findo um centenário de vida muito gozada nesta colina que parece dormir cada vez menos, a Festa começa hoje à quarta-feira e prolonga-se com exuberância até à noite de Sábado. As noites de Domingo pertencem aos especialistas, bares e clientes, a noite de segunda-feira faz lembrar tempos antigos e à terça-feira já se vêm umas belas almas encostadas à porta de um bar a fumegar num cigarro.
Não sou de todo um noctívago embebido em absinto, mas morando no bairro é evidente que aqui e ali tomei partido dos facilidades oferecidos como em noites de Domingo em que descobri ao acaso que um outro bar tem por especialidade agitar a noite tranquila de domingo, na Rua da Rosa O Bar do Bairro é exemplo disso. As Catacumbas oferecem música ao vivo de segunda a quinta-feira, e na noite de início de semana não há muito melhor para matar as horas. O Capela é um óptimo local para se escutar a música na tendência ainda fresca de quem veio da praça com um robalo da costa de olho cristalino. À terça-feira é para quem sabe, durante o fim-de-semana é aliás difícil demais conseguir por os dois pés junto do bar. A mesa e os pratos estão lá sob um estrado soberbamente barroco rococo. Aquele espaço fascina-me porque é mesmo velho. Reparem no chão, aquelas pedras pelas quais já deve ter inclusive caminhado o gado. A toada sonora é relevante no panorama do bairro e lembram-se os tempos de vanguarda na introdução do Electrotrash em conjunto com outras casas das quais destaco ainda o Purex de onde haveria de nascer a projecção de uma das metades dos Desperados residentes no Lux.

O Purex é aliás uma casa que sabe receber, sem desprimor pelos taberneiros gente que sabe estar faz sempre falta na farra boémia que é a noite lisboeta. O roteiro de casas ilustres passa sempre pelo Café Suave, uma pérola tanto efémera pelas suas melhores noites musicais como sólida no tempo pela atitude sempre positivamente leviana a convidar ao desleixo de uma noite perdida a ganhar conversa no sofá da montra. A exposição social de uma geração de sofá surfers meio niilista, meio exuberante nas suas esperanças poeticamente fundamentadas e nunca simplesmente infundamentadas. A Rua da Barroca é cada vez mais uma avenida 24 de Julho interina do Bairro Alto. Destaco o Rua, um bar onde a tónica refrescante está na letra certa, na música. Pratos a rodar são um bom presságio num meio onde a maioria dos bares continua a apostar no CDzinho de colectâneas e hoje na playlist farsola do IPod depois dos anos 80 terem sido rodados à volta de k7s – imperdoável. O Rua brilha e atrai uma geração mais nova que enche de esperança um cenário no qual os pratos e a boa música têm mesmo de vencer o dia de amanhã -é imparável a toada de bom gosto que temos de ganhar.
O Nylon no avançar da noite é uma opção que vai ganhando consistência e depois a perde na outra esquina, a ver vamos. O mesmo vale para o Majong que aposta no mundo visual e acaba por negligenciar a música, mas lá está quem lá vai, vai na busca de gente bonita – não se pode levar isso a mal. O Mexe perdeu o seu imenso brilho inicial, no término da cena Electroclash em que a fusão com sons mais quentes, em especial de Lucky esse, grande DJ de sorriso enorme. Novas iniciativas são bem capazes de me levar lá mais vezes. No Bairro estes são os nomes mais importantes para quem gosta de se perder em conversa, comigo. Isto claro está depois de boa comida que se busca em mesa alheia se não estivermos para pegar nos tachos e panelas cá no alto do terceiro andar a ver a malta a chegar ao bairro. O Caracol é uma instituição com preços discutíveis mas bom ambiente com algum requinte que não é presunçoso. O Primavera segue a mesma onda despretensiosa e de óptimo apuro de degustação. Mas infelizmente na larga maioria das casas come-se muito mal. Os japoneses são no entanto escolhas acertadas, caras mas certeiras tanto no que diz respeito ao Bonzai, o primeiro e original restaurante japonês da noite lisboeta e o mais recente Kinjolas com uma maravilhosa oferta de caipirinhas de saké à base de uvas, kiwis ou outras opções e uma fantástica sala de conveniência privada para grupos no primeiro piso.
Ficam as escolhas porque depois a noite tem de passar pelo cabo elétrico que leva do Bairro a São Paulo. Essa viagem tem o seu início na dupla Bicaense & Baliza. Amo as duas casas, cada uma à sua maneira. A Bicaense pelo seu espírito pioneiro, pela sua estética, pela simpatia da Susana a servir Daikiris e Mochitos únicos e ainda por bater. (Malta o 5 é uma casa à parte e não entra nesta guerra). A Bicanese ainda pelos tempos em que numa sala única se fazia a festa com o DJ exposto fora do balcão lateral sob duas paletes de madeira, à beira do seu público. Posição arriscada mas valiosa para quem esteve presente em noites de eleição. Mais ainda a Bicaense pelas lendárias noites de Jazz em colaboração com o Hot Club. Quartas-feiras em que o verão acabava por invadir o pleno Inverno. O Baliza pela simpatia e atitude sempre certeira a par de uma mão cheia de exposições que considerei verdadeiramente válidas no campo da ilustração e fotografia. Bom gosto sem manias, sem presunção – apenas bom gosto e aquela atitude.
Estas são as casas da minha perdição e em homenagem deixo lá uma boa parte do meu orçamento - como todos vós.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

.jornais e cigarros #8

Sou um homem de vícios. Pequenos vícios.
É o café da manhã, o café da tarde e mesmo o café da noite. Com ou sem leite a qualquer altura serve me bem uma chávena a frio ou a quente. Tenho também o vício do cigarro enrolado à mão que acendo repetidamente. Hoje não fume pela manhã, remeto esse prazer para as horas que correm no relógio após o meio-dia. Saio de casa, calgando as escadas íngremes abaixo na ansiedade de saltar rua a fora. A porta verde fecha-se nas minhas costas, viro à direita e poiso o pé na calçada. É um tiro e entro na loja da esquina com frente para a Rua da Rosa e montra escondida para a Rua da Atalaia. A escolha nesta papelariatabacaria é sempre vasta; nos jornais e nos fumos. Público e DN sempre disponíveis, no mostrador encontro primeiro o Record, a Bola o CM e outros periódicos de valor baixo. As revistas são mais que muitas e entre letras rosa e muita carne que se exibe encontro sempre uma revista de viagens, de lifestyle, de carros ou tecnologia. Atrás do balcão o pai ou o filho exibem um sorriso nervoso. São ambos excelentes vendedores, sabendo estimar o cliente. À Sexta-feira a caixa do euromilhões não para um momento. Mas hoje não é sexta e entro de rompante. A casa raramente está vazia, há sempre alguém a folhear uma revista a interrogar a sabedoria de quem abre a loja pelas 7 e pouco da manhã e a mantém aberta até às 20h. Aqui sabe-se um pouco de toda a gente. Muitas histórias se contam, muitos mitos se confirmam, ou não! Para além de toda a sabedoria espalhada nas publicações à venda a loja é gerida há mais de 20 anos por uma família que teve as suas origens em Moçambique. A escolha de tabacos é imensa. Do chamado cigarrinho industrial, ao tabaco de cachimbo passando pelo tabaco de enrolar as escolhas são imensas. Se há um maço no mercado, estará à venda neste posto. É certo. O Sr. Sequeira não brinca em serviço e avarento como é percebe o fumador que mensalmente se irrita com a constante subida de impostos e preços do importador. Há que procurar novidades. Uma caixa de filtros, dos finos como pai e filho sabem, um tabaco estilo Virgínia e duas caixas de mortalhas e com o Público debaixo do braço faço-me à estrada.
Se num domingo troco facilmente a bola por uma sessão de cinema e jantar tardio, na segunda-feira sou incapaz de não olhar a capa da Bola na busca dos números mágicos, os valores que colocam o meu clube acima da concorrência. Cheiro as capas numa ansiedade que tem sido repetidamente tranquilizada nos últimos tempos.
O meu dia preferido de leitor de jornais é claramente o Sábado. Sabe me bem demais fazer o giro entre a bela casa do Bairro, a Tabacaria na esquina, a mercearia e o Café mais próximo. Saciar os prazeres não carnais com o sono ainda estampado na cara. Se o sono for imenso, prescindo do café em local público e retorno a casa. Abro a janela e vamos lá de folhear o mundo com um belo café frio nos lábios.Amo-te Lisboa.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

.o sofá #7

Viver no Bairro significa ter o sofá mais perto da boa vida, da farra, dos amigos e da família. Nestes quatro anos o sofá mudou até de lugar. Esteve durante uma temporada virado para a janela, agora está encostado á parede permitindo uma melhor circulação na sala. É um sofá grande, enorme quando aberto e bem mais giro nessa circunstância. Já serviu de cama para um bom par de gente, tudo boa gente que pernoitou uma vez, gente que repetiu, gente que foi ficando, gente que improvisou e gente que o partilhou a 5 em noites de jantaradas. A sala não é grande, até porque a casa é diminuta. Foi remodelada há meia dúzia de anos por uma pessoa de bom gosto que sobe aproveitar melhor a compartimentação. Pé direito alto como gosto, a sala oferece duas janelas para sul, esse mágico ponto cardeal. A cozinha fica escondida por uma esquina e é fácil encontrar umas migalhas de pão alentejano ou broa de centeio no sofá. Esta disposição num espaço tão reduzido oferece um conforto que faz do belo sofá um centro, um lugar do qual se contempla a conversa dos outros e onde nos deixamos levar em abertura de espírito e em sonhos que amanhã queremos construir. Salto do sofá e troco o CD, Miles Davis e o seu Sketches from Spain, é um clássico em finais de dias ou em noites de verão. Muitas vezes ouvi esta magnífica obra que eleva as reminiscências para o calor do Verão. É um sofá feliz porque recebeu muito mais gente feliz que infeliz, porque fez rir e ouviu sorrisos intrometidos por brincadeiras entre conversas sérias.
O sofá, é uma alegoria, porque representa a maneira de receber nesta casa. Uma maneira sempre timbrada pela vontade de conhecer o próximo, de deixar as pessoas à vontade para delas retirar a melhor conversação. Viver no Bairro do Amor significa abrir a porta a uma larga maioria dos amigos e faze-lo mais vezes que noutros lugares. Todo o mundo acolhe ao bairro, já nem é necessário ser fim-de-semana para tal. Alguém espreita e pensa, «hum…estará alguém?» E vai daí e toca. Toca e sobe porque não se deixa alguém lá fora. Pelo menos um amigo. Os mais amigos, passam a chegar a horas cada vez mais tardias e por vezes confundem a tua casa com uma hospedaria aberta noite fora. Eu lamento-me mas gosto. E na verdade hoje até considero que foram poucas as vezes que tive de abrir o sofá às 5 ou 6 da manhã, colocar lençol e oferecer algum conforto e bem-estar a quem visitou a casa. E a casa nunca foi minha, foi sempre nossa. Ontem foi o Miguel e amanhã poderá ser outro o nome a beber do sono valente lá em cima no bairro, onde o bairro se coloca em bicos de pés para ver um pouco desse mar que é o mar do Tejo, o mar do amor, a água desta cidade que é uma Mulher morena e bela.
Na posição original do sofá, de frente para a janela avistava-se o nascer do dia até se descobrir num raiar o Tejo.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

.a minha Rua, [a nossa]#5



















A minha rua tem um nome belo, oriundo da influência muçulmana que um dia reinou sobre Lisboa e da qual a maior parte dos vestígios desapareceu. Atalaia, significa torre de vigia, ponto de vista alto, a sua morfologia indica a observação e a precaução como campos semânticos. É uma rua comprida que sobe da Largo do Calhariz pelo Bairro Alto a dentro até culminar num L ao fim de 450 metros na Rua da Rosa. Gosto da sonoridade associada ao seu nome. É uma rua sempre muito movimentada, com muitas referências que se espelham ao longo da calçada. Referências como o Restaurante 1º de Maio, o Café Majong. Preencho-vos ainda mais o referencial de memória e exclamo: Janela da sala de concerto da Galeria ZdB! NA Rua da Atalaia também ficam o Spot que considero um bar mesmo pobre que acaba sempre por atrair os mais feios do bairro comas suas atitudes mais tristes. Mas há a grande Capela, um local que aposta como poucos no bairro em exuberância acústica aliada a uma decoração meio barroca, meio franciscana.




Adoro seguir com os olhos aquelas pedras velhas, antiquíssimas, como um caminho que hoje serve os transeuntes alegres e noutra época qualquer serviu de estábulo ou o raio que lhe valha. A música é fresca e lembro-me de noites domingueiras de excelente partilha de umas cervejas com amigos da Áustria.
Na mesma rua está também o mausoléu da Fátima, a Lopes e custoreira. Foi sumariamente bar-discoteca, hoje guarda ainda aqueles manequins e as loiças da menina.
Portas de referência da minha rua, essa sim era a questão em ênfase. A Porta do frágil, mítico espaço do bairro alto que mudou de mãos há um par de anos, mas que preservou o ambiente gay, estilo New York de terceira mas suficiente para Lisboa. O Portas Largas já não tem o local solitário de café gay de Lisboa, nem as míticas letras do reclame luminoso do diário desportivo Record. Hoje há o Kitchen e mais umas portas que vão abrindo ou mudando de mãos mas que raramente me chamaram à atenção. As Primas sim. Houve um tempo de faculdade em que passava aqui horas nesta gruta, de volta da jukebox a ouvir o Tarzan Boy num exercício de mau gosto voluntário. Mesclávamos a Sandra a cantar a Maria Magdalena com Siouxie and The Banshees e Cure como sempre. Gozávamos Táxi e fazíamos alguém cantar a Rua do Carmo. A malta de Letras jogava matrecos com amigos pela noite dentro. Uma noite fora de volta da mesa verde e depois descíamos a Calçada do Combro em direcção a 3 horas de dança no Incógnito antes de morarmos na Cachupa até ao amanhecer. Mas isso nada tem com a Rua da Atalaia. Antes de vir morar para esta Rua já tinha frequentado algumas vezes o Café Lisbonna e o Avião, mas apenas esporadicamente, pois era na altura uma zona escura e suja, como ainda o é hoje. Mas hoje conheço os donos. O Sr António e o seu maiu temperamento são lendários na rua e a sua esposa e a irmã dele sofrem na pele, a irra do homem lusitano no seu estado mais puro, meio campónio, meio Chico esperto. Já o filho que tem aparecido para tomar o lugar do pai à frente da mina de ouro mal explorada da casa tem um ar menos sisudo. No Lisbonna os donos tem um ar de dupla infalível, um curto outro esticado de pelo em pé, mas são uns moços tranquilos de boa alma taberneira.
Cheguei em pleno Inverno solarengo de 2004, aquele em que não chuveu, lembram-se? Fazia um frio de rachar e a rua da Atalaia como todas as ruas ascendentes funcionam como um túnel de vento, onde a brisa que vem lá do cais do rio vai galgando a calçada para embater meio kilometro mais acima nas nossas cara. No terceiro andar a olhar a nesga do mar lá ao fundo é assim. Para além de fazer um frio terrível, nesse ano não senti tanto barulho na rua. O Toxsin ainda não tinha aberto, o café da frente onde uma senhora, seguramente septuagenária vende cervejas num café que tem as paredes repletas de posters dos Iron Maiden e dos Cradle of Filth. Uma imagem surreal e barulhenta.
A rua está mais cheia e mais vezes cheia por semana.
Durante a noite a minha Rua da Atalaia é suja e barulhenta cá em cima junto da Rua da Rosa. A meio tem a venda ambulante e passa ali no universo do engate gay barato e continua por entre um cortina de bares à esquerda e à direita para terminar lá em baixo no charme da Galeria Zdb e Majong já depois de ter passado na Tia Alice decrépita, no iconográfico Frágil e na nova tendência da Capela. Vamos à Bica apetece dizer lá em baixo.
Durante o dia, muita coisa é diferente. Há a praça que vende peixe fantástico nas 4 ou 5 bancas abertas. A partir das oito o barulho aumenta de tom, pois as crianças da escola primária têm um jardim no logradouro. Berram os putos e sorriem, como também eu esboço um sorriso quando oiço o frenesim deles durante o intervalo grande a meio da manhã. É uma questão de normalidade e sanidade julgo eu. O bairro não pode ser só farra. Pela manhã lê-se muito bem o diário desportivo que o Sr. José Carlos guarda atrás do balcão. É um café despido de exibicionismos, feio mesmo, mas tranquilo que não esconde o seu ar verdadeiramente bairrista. É aqui que a gente do bairro se sente bem. Os mais velhos que ainda trabalham, os reformados, misturam-se com uma malta de Erasmus e uns alfacinhas da nova geração de imigrantes, como eu, que gostam de viver um voyerismo e sentir o pulso natural de um bairro como este. Pela tarde segue-se a rua rumo ao Sul, vamos ao Adamastor.




Amo, o bairro. Amo-te Lisboa.

terça-feira, 6 de maio de 2008

. teatro e cinema #4

Tenho pena de tanto havendo no Bairro, tão poucos são os palcos e as telas suspensas nas portas que dias após dias abrem no bairro… Os artistas Unidos já lá vão, bem como a promessa de ver o edifício profundamente renovado de modo a proporcionar mais e melhores salas para um público crescente. Mas começando pelo que existe.

A Galeria ZDB é uma excepção, com uma sala que tem tanto de grande como de polivalente, este espaço vai fazendo a honra do bairro e vai atraindo performances e espectáculos ao vivo com regularidade e resultados provados: esgota todos os dias.

Nas Catacumbas, onde uma gerência intergeracional toma conta da música que se quer em tons de blues ou jazz, existe música ao vivo durante a semana, com jam sessions pela noite dentro e clímax pelas 02h. A sessão é viva e mesmo em noite de segunda-feira podemos contar com uma casa cheia, provando que a gente que gosta de ouvir música ao vivo é cada vez mais numerosa.

No Majong existe a tela, uma das primeiras no Bairro Alto e que mais uso tem tido. Um gosto ver a Laranja Mecânica de trás para a frente, de espreitar películas a meio entre duas cervejas. Que sabor doce aos olhos, este rasgar de ideias projectadas, na tela, projectadas no vão de vidro. Mais fresco até que as couves penduradas do tecto.

Mas infelizmente os exemplos de palcos e telas ficam quase só por aqui. Agora que a Ler devagar e a Eterno Retorno se enrolaram com enorme sucesso num projecto que procura descentralizar para Oriente a cultura, mais pobre ficou o bairro. Posso sempre ir ao Cine-Paraíso ver uma película porno. Teatro, só na Trindade, só no São Carlos, no São Luís, nos palácios institucionalizados e pesados. Parece não haver espaço para as pequenas cabeças brilhantes que vagueiam cheias de iniciativa pelas ruas de Lisboa. A concepção de um projecto urbanístico como a transformação do Convento dos Inglesinhos teria para mim um sentido único de possibilitar a criação de pólos essenciais para conferir ao Bairro Lato qualidade de vida a quem por estas bandas vive bem como para quem vem espreitar de visita. Uma sala de cinema com pendor para o cinema europeu seria um sucesso neste bairro cada vez mais Erasmus. Há ruas como a de Luísa Todi e depois não há salas de espectáculo no bairro. Este é um processo mal conduzido, que rouba espaço a áreas vitais e as oferece ao mercado que se cinge à restauração e bebidas o que restringe em muito a oferta cultural multi disciplinar do Bairro Alto. Que pena…


Por isso é que é tão importante não disistir e procurar soluções como o MAL fez em Setembro de 2007 com a criação do CineLençol estendido no Príncipe Real para uma noite de Verão com cinema