sexta-feira, 9 de maio de 2008

.o sofá #7

Viver no Bairro significa ter o sofá mais perto da boa vida, da farra, dos amigos e da família. Nestes quatro anos o sofá mudou até de lugar. Esteve durante uma temporada virado para a janela, agora está encostado á parede permitindo uma melhor circulação na sala. É um sofá grande, enorme quando aberto e bem mais giro nessa circunstância. Já serviu de cama para um bom par de gente, tudo boa gente que pernoitou uma vez, gente que repetiu, gente que foi ficando, gente que improvisou e gente que o partilhou a 5 em noites de jantaradas. A sala não é grande, até porque a casa é diminuta. Foi remodelada há meia dúzia de anos por uma pessoa de bom gosto que sobe aproveitar melhor a compartimentação. Pé direito alto como gosto, a sala oferece duas janelas para sul, esse mágico ponto cardeal. A cozinha fica escondida por uma esquina e é fácil encontrar umas migalhas de pão alentejano ou broa de centeio no sofá. Esta disposição num espaço tão reduzido oferece um conforto que faz do belo sofá um centro, um lugar do qual se contempla a conversa dos outros e onde nos deixamos levar em abertura de espírito e em sonhos que amanhã queremos construir. Salto do sofá e troco o CD, Miles Davis e o seu Sketches from Spain, é um clássico em finais de dias ou em noites de verão. Muitas vezes ouvi esta magnífica obra que eleva as reminiscências para o calor do Verão. É um sofá feliz porque recebeu muito mais gente feliz que infeliz, porque fez rir e ouviu sorrisos intrometidos por brincadeiras entre conversas sérias.
O sofá, é uma alegoria, porque representa a maneira de receber nesta casa. Uma maneira sempre timbrada pela vontade de conhecer o próximo, de deixar as pessoas à vontade para delas retirar a melhor conversação. Viver no Bairro do Amor significa abrir a porta a uma larga maioria dos amigos e faze-lo mais vezes que noutros lugares. Todo o mundo acolhe ao bairro, já nem é necessário ser fim-de-semana para tal. Alguém espreita e pensa, «hum…estará alguém?» E vai daí e toca. Toca e sobe porque não se deixa alguém lá fora. Pelo menos um amigo. Os mais amigos, passam a chegar a horas cada vez mais tardias e por vezes confundem a tua casa com uma hospedaria aberta noite fora. Eu lamento-me mas gosto. E na verdade hoje até considero que foram poucas as vezes que tive de abrir o sofá às 5 ou 6 da manhã, colocar lençol e oferecer algum conforto e bem-estar a quem visitou a casa. E a casa nunca foi minha, foi sempre nossa. Ontem foi o Miguel e amanhã poderá ser outro o nome a beber do sono valente lá em cima no bairro, onde o bairro se coloca em bicos de pés para ver um pouco desse mar que é o mar do Tejo, o mar do amor, a água desta cidade que é uma Mulher morena e bela.
Na posição original do sofá, de frente para a janela avistava-se o nascer do dia até se descobrir num raiar o Tejo.

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