segunda-feira, 12 de maio de 2008

.jornais e cigarros #8

Sou um homem de vícios. Pequenos vícios.
É o café da manhã, o café da tarde e mesmo o café da noite. Com ou sem leite a qualquer altura serve me bem uma chávena a frio ou a quente. Tenho também o vício do cigarro enrolado à mão que acendo repetidamente. Hoje não fume pela manhã, remeto esse prazer para as horas que correm no relógio após o meio-dia. Saio de casa, calgando as escadas íngremes abaixo na ansiedade de saltar rua a fora. A porta verde fecha-se nas minhas costas, viro à direita e poiso o pé na calçada. É um tiro e entro na loja da esquina com frente para a Rua da Rosa e montra escondida para a Rua da Atalaia. A escolha nesta papelariatabacaria é sempre vasta; nos jornais e nos fumos. Público e DN sempre disponíveis, no mostrador encontro primeiro o Record, a Bola o CM e outros periódicos de valor baixo. As revistas são mais que muitas e entre letras rosa e muita carne que se exibe encontro sempre uma revista de viagens, de lifestyle, de carros ou tecnologia. Atrás do balcão o pai ou o filho exibem um sorriso nervoso. São ambos excelentes vendedores, sabendo estimar o cliente. À Sexta-feira a caixa do euromilhões não para um momento. Mas hoje não é sexta e entro de rompante. A casa raramente está vazia, há sempre alguém a folhear uma revista a interrogar a sabedoria de quem abre a loja pelas 7 e pouco da manhã e a mantém aberta até às 20h. Aqui sabe-se um pouco de toda a gente. Muitas histórias se contam, muitos mitos se confirmam, ou não! Para além de toda a sabedoria espalhada nas publicações à venda a loja é gerida há mais de 20 anos por uma família que teve as suas origens em Moçambique. A escolha de tabacos é imensa. Do chamado cigarrinho industrial, ao tabaco de cachimbo passando pelo tabaco de enrolar as escolhas são imensas. Se há um maço no mercado, estará à venda neste posto. É certo. O Sr. Sequeira não brinca em serviço e avarento como é percebe o fumador que mensalmente se irrita com a constante subida de impostos e preços do importador. Há que procurar novidades. Uma caixa de filtros, dos finos como pai e filho sabem, um tabaco estilo Virgínia e duas caixas de mortalhas e com o Público debaixo do braço faço-me à estrada.
Se num domingo troco facilmente a bola por uma sessão de cinema e jantar tardio, na segunda-feira sou incapaz de não olhar a capa da Bola na busca dos números mágicos, os valores que colocam o meu clube acima da concorrência. Cheiro as capas numa ansiedade que tem sido repetidamente tranquilizada nos últimos tempos.
O meu dia preferido de leitor de jornais é claramente o Sábado. Sabe me bem demais fazer o giro entre a bela casa do Bairro, a Tabacaria na esquina, a mercearia e o Café mais próximo. Saciar os prazeres não carnais com o sono ainda estampado na cara. Se o sono for imenso, prescindo do café em local público e retorno a casa. Abro a janela e vamos lá de folhear o mundo com um belo café frio nos lábios.Amo-te Lisboa.

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