quinta-feira, 8 de maio de 2008

.a minha Rua, [a nossa]#5



















A minha rua tem um nome belo, oriundo da influência muçulmana que um dia reinou sobre Lisboa e da qual a maior parte dos vestígios desapareceu. Atalaia, significa torre de vigia, ponto de vista alto, a sua morfologia indica a observação e a precaução como campos semânticos. É uma rua comprida que sobe da Largo do Calhariz pelo Bairro Alto a dentro até culminar num L ao fim de 450 metros na Rua da Rosa. Gosto da sonoridade associada ao seu nome. É uma rua sempre muito movimentada, com muitas referências que se espelham ao longo da calçada. Referências como o Restaurante 1º de Maio, o Café Majong. Preencho-vos ainda mais o referencial de memória e exclamo: Janela da sala de concerto da Galeria ZdB! NA Rua da Atalaia também ficam o Spot que considero um bar mesmo pobre que acaba sempre por atrair os mais feios do bairro comas suas atitudes mais tristes. Mas há a grande Capela, um local que aposta como poucos no bairro em exuberância acústica aliada a uma decoração meio barroca, meio franciscana.




Adoro seguir com os olhos aquelas pedras velhas, antiquíssimas, como um caminho que hoje serve os transeuntes alegres e noutra época qualquer serviu de estábulo ou o raio que lhe valha. A música é fresca e lembro-me de noites domingueiras de excelente partilha de umas cervejas com amigos da Áustria.
Na mesma rua está também o mausoléu da Fátima, a Lopes e custoreira. Foi sumariamente bar-discoteca, hoje guarda ainda aqueles manequins e as loiças da menina.
Portas de referência da minha rua, essa sim era a questão em ênfase. A Porta do frágil, mítico espaço do bairro alto que mudou de mãos há um par de anos, mas que preservou o ambiente gay, estilo New York de terceira mas suficiente para Lisboa. O Portas Largas já não tem o local solitário de café gay de Lisboa, nem as míticas letras do reclame luminoso do diário desportivo Record. Hoje há o Kitchen e mais umas portas que vão abrindo ou mudando de mãos mas que raramente me chamaram à atenção. As Primas sim. Houve um tempo de faculdade em que passava aqui horas nesta gruta, de volta da jukebox a ouvir o Tarzan Boy num exercício de mau gosto voluntário. Mesclávamos a Sandra a cantar a Maria Magdalena com Siouxie and The Banshees e Cure como sempre. Gozávamos Táxi e fazíamos alguém cantar a Rua do Carmo. A malta de Letras jogava matrecos com amigos pela noite dentro. Uma noite fora de volta da mesa verde e depois descíamos a Calçada do Combro em direcção a 3 horas de dança no Incógnito antes de morarmos na Cachupa até ao amanhecer. Mas isso nada tem com a Rua da Atalaia. Antes de vir morar para esta Rua já tinha frequentado algumas vezes o Café Lisbonna e o Avião, mas apenas esporadicamente, pois era na altura uma zona escura e suja, como ainda o é hoje. Mas hoje conheço os donos. O Sr António e o seu maiu temperamento são lendários na rua e a sua esposa e a irmã dele sofrem na pele, a irra do homem lusitano no seu estado mais puro, meio campónio, meio Chico esperto. Já o filho que tem aparecido para tomar o lugar do pai à frente da mina de ouro mal explorada da casa tem um ar menos sisudo. No Lisbonna os donos tem um ar de dupla infalível, um curto outro esticado de pelo em pé, mas são uns moços tranquilos de boa alma taberneira.
Cheguei em pleno Inverno solarengo de 2004, aquele em que não chuveu, lembram-se? Fazia um frio de rachar e a rua da Atalaia como todas as ruas ascendentes funcionam como um túnel de vento, onde a brisa que vem lá do cais do rio vai galgando a calçada para embater meio kilometro mais acima nas nossas cara. No terceiro andar a olhar a nesga do mar lá ao fundo é assim. Para além de fazer um frio terrível, nesse ano não senti tanto barulho na rua. O Toxsin ainda não tinha aberto, o café da frente onde uma senhora, seguramente septuagenária vende cervejas num café que tem as paredes repletas de posters dos Iron Maiden e dos Cradle of Filth. Uma imagem surreal e barulhenta.
A rua está mais cheia e mais vezes cheia por semana.
Durante a noite a minha Rua da Atalaia é suja e barulhenta cá em cima junto da Rua da Rosa. A meio tem a venda ambulante e passa ali no universo do engate gay barato e continua por entre um cortina de bares à esquerda e à direita para terminar lá em baixo no charme da Galeria Zdb e Majong já depois de ter passado na Tia Alice decrépita, no iconográfico Frágil e na nova tendência da Capela. Vamos à Bica apetece dizer lá em baixo.
Durante o dia, muita coisa é diferente. Há a praça que vende peixe fantástico nas 4 ou 5 bancas abertas. A partir das oito o barulho aumenta de tom, pois as crianças da escola primária têm um jardim no logradouro. Berram os putos e sorriem, como também eu esboço um sorriso quando oiço o frenesim deles durante o intervalo grande a meio da manhã. É uma questão de normalidade e sanidade julgo eu. O bairro não pode ser só farra. Pela manhã lê-se muito bem o diário desportivo que o Sr. José Carlos guarda atrás do balcão. É um café despido de exibicionismos, feio mesmo, mas tranquilo que não esconde o seu ar verdadeiramente bairrista. É aqui que a gente do bairro se sente bem. Os mais velhos que ainda trabalham, os reformados, misturam-se com uma malta de Erasmus e uns alfacinhas da nova geração de imigrantes, como eu, que gostam de viver um voyerismo e sentir o pulso natural de um bairro como este. Pela tarde segue-se a rua rumo ao Sul, vamos ao Adamastor.




Amo, o bairro. Amo-te Lisboa.

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