. o Carro #2
Na montra da loja, cá no alto da Rua da Rosa, quase à porta de casa, estende-se um logo de uma bicicleta no tecido da t-shirts. Lê-se: Um carro a menos.
Não há bairro pior que o do Amor para se ter e guardar uma viatura de quatro pernas. Um Vespa sim, pelo menos talvez pela sua figura tão singela e sempre tão pretendida por mãos alheias. Se a política do pilarete retráctil trouxe paz à maioria dos moradores durante a semana e mais trouxe às legiões de adeptos que o bairro foi ganhando na cultura da movida que faz da calçada o maior bebedouro da cidade.
Que o carro é inimigo da cidade, isso toda a gente sabe, mas no bairro é motivo mesmo de troça. Começa na dificuldade de encontrar um lugar para aparcar o chaço. Sim porque a trazer, mais vale um chaço a qualquer coisa que não exceda um Smart. Riscos, amolgadelas, espelhos partidos e antenas roubadas são os dissabores menores quando comparados ao número de assaltos e furtos de viaturas nas ruelas que circundam o Bairro. Resta o Príncipe Real como refúgio gratuito, não fosse pela moeda para as equipas de arrumadores. Mas é um negócio válido e por todos legitimado. Eles quebram continuamente as caixas da Emel e nós aprontamo-nos a pagar esse serviço que a Emel há muito deixou de tentar vencer. Hoje conheço todos os arrumadores, os que fazem a tarde, os que continuam na noite e os que antes das oito da manhã já lá estão para fazer render o dia. Organizam-se por turnos, com territórios fixos que nem prospectores imobiliários e vão gerindo o negócio como qualquer empresa. Tenho até as minhas preferências e até me chegou aos ouvidos quantas notas custa um dos quatro lados do jardim.
Não fosse a intervenção esporádica e desconexa da Polícia Municipal e da sua irritante política de bloquear como quem colhe flores no prado verde, e a paz seria total. No meu primeiro ano de vivência contava 4 lugares secretos para estacionar, dois foram descobertos e prontamente roubados pelas brigadas que pilareterizam as ruelas de Lisboa. Pena! Tive rapidamente que os substituir por outros, mais longínquos, sinto-me a quase um índio no Brasil que vê o seu território cada vez mais fustigado por mão alheia. Após um início de vivência promissor as multas amontoaram-se ao fim de seis meses. Chegou a ser à média de uma multa por mês. Multa, reboque e lá estava eu a caminho da Avenida Cardeal Cerejeira. A mais inoportuna foi a 13 de Março, e nesse início de tarde, na altura o dia mais quente do ano, os 25º C fizeram suar a minha cabeça por demasiado. Acordar num Sábado de cabeça às voltas já era suficientemente mau quanto mais chegar ao Príncipe Real e descobrir que a viatura tranquilamente estacionada na madrugada anterior já não lá estava. Ainda para mais quando no baú se encontravam objectos que urgentemente ia precisar nessa tarde. Mau demais lembrar que a brincadeira custou 90 euros e uma descomunal dor de cabeça. Há também a noite em que fui à esquadra oferecer o meu depoimento sobre o assalto de que o meu azul tinha sido alvo. Mais uma vez a pronta ajuda de terceiros foi vital para coordenar o assunto.
Uma vez que os furtos são tantos, sempre que chego a casa e me apercebo que o telemóvel ficou na viatura blasfemo antes de voltar a vestir o casaco e me fazer novamente à rua para não me arrepender na manhã seguinte com a visão de um vidro quebrado para alguém ficar com o meu telemóvel que ainda para mais faz péssimo contacto e tem a pilha viciadíssima. Estacionar longe de casa tem destas coisas e posso até dizer que o mais longe que alguma vez deixei o meu carro foi no Cais do Sodré rivalizando com outra em que deixei a viatura perto da Cinemateca na Rua Barata Salgueiro ou na Rua do Vale do Pereira lá para as bandas da Rua Braamcamp. A não ser que a praia seja o destino, tenho a política de não mexer no carro de quinta-feira a domingo, tão grande é o trauma de tentar encontrar estacionamento a partir das 21 horas.
Sem mobilidade ir às compras torna-se um pesadelo, acentuado por o terceiro andar não ser servido de elevador. É puro exercício e quem ganha, é mesmo o comércio local que fui preferindo e cultivando em determínio das visitas à bruta ao grossista. Quando me quero vingar, encomendo nos hipers, mas infelizmente os tempos de entrega reduzidos à manhã tornam-se num obstáculo difícil de gerir. Quem quer entrar no Bairro tem até às 11h30 depois, nada. Com os camiões das cervejeiras a fazerem as suas domiciliações a tanto bar e restaurante, a Rua da Rosa chega a estar intransitável por quartos de hora que se vão somando ao longo da manhã.
Enfim, o carro e o Bairro é daquelas cominações que tenho a certeza de que não vou sentir saudades quando partir desta nobre morada.
Na montra da loja, cá no alto da Rua da Rosa, quase à porta de casa, estende-se um logo de uma bicicleta no tecido da t-shirts. Lê-se: Um carro a menos.
Não há bairro pior que o do Amor para se ter e guardar uma viatura de quatro pernas. Um Vespa sim, pelo menos talvez pela sua figura tão singela e sempre tão pretendida por mãos alheias. Se a política do pilarete retráctil trouxe paz à maioria dos moradores durante a semana e mais trouxe às legiões de adeptos que o bairro foi ganhando na cultura da movida que faz da calçada o maior bebedouro da cidade.
Que o carro é inimigo da cidade, isso toda a gente sabe, mas no bairro é motivo mesmo de troça. Começa na dificuldade de encontrar um lugar para aparcar o chaço. Sim porque a trazer, mais vale um chaço a qualquer coisa que não exceda um Smart. Riscos, amolgadelas, espelhos partidos e antenas roubadas são os dissabores menores quando comparados ao número de assaltos e furtos de viaturas nas ruelas que circundam o Bairro. Resta o Príncipe Real como refúgio gratuito, não fosse pela moeda para as equipas de arrumadores. Mas é um negócio válido e por todos legitimado. Eles quebram continuamente as caixas da Emel e nós aprontamo-nos a pagar esse serviço que a Emel há muito deixou de tentar vencer. Hoje conheço todos os arrumadores, os que fazem a tarde, os que continuam na noite e os que antes das oito da manhã já lá estão para fazer render o dia. Organizam-se por turnos, com territórios fixos que nem prospectores imobiliários e vão gerindo o negócio como qualquer empresa. Tenho até as minhas preferências e até me chegou aos ouvidos quantas notas custa um dos quatro lados do jardim.
Sem mobilidade ir às compras torna-se um pesadelo, acentuado por o terceiro andar não ser servido de elevador. É puro exercício e quem ganha, é mesmo o comércio local que fui preferindo e cultivando em determínio das visitas à bruta ao grossista. Quando me quero vingar, encomendo nos hipers, mas infelizmente os tempos de entrega reduzidos à manhã tornam-se num obstáculo difícil de gerir. Quem quer entrar no Bairro tem até às 11h30 depois, nada. Com os camiões das cervejeiras a fazerem as suas domiciliações a tanto bar e restaurante, a Rua da Rosa chega a estar intransitável por quartos de hora que se vão somando ao longo da manhã.Enfim, o carro e o Bairro é daquelas cominações que tenho a certeza de que não vou sentir saudades quando partir desta nobre morada.
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