terça-feira, 6 de maio de 2008



. chavena de Café #3

Não há nada como acordar e olhar o céu azul, os últimos traços alaranjados tão característicos das manhãs primaveris quando o calor se começa a fazer sentir logo pela manhã. Durmo de portada escancarada, sem cortinados, no verão até de janela amplamente aberta.
Da janela do quarto avista-se a rua e lá ao longe a serra da Arrábida, esse templo que tonifica a beleza de Lisboa. O nascer do dia tem o seu início nas costas desse maciço verde que se estende entre Sesimbra e Palmela, no mar.. De início surge-nos em contraluz, e apenas uma ténue linha se vislumbra lá ao fundo do horizonte.

A claridade crescente vence a escuridão e já no bairro se ouvem os mais inquietos no busca-busca de pão, leite e porque não, cigarros e jornais que trazem as mais recentes letras tão gordas. As mercearias acolhem os locais, nada de turistas a esta hora vespertina, a esta hora o bairro está o mais próximo de um passado que ainda vivo e activo. As paragens de autocarro vão-se enchendo enquanto vão vagando lugares à mesa ou ao balcão nos cafés que abrem portas logo cedo pela manhã. Nem tudo são bares, nesta terra como a Casa do Sr. José Carlos que na rua da Atalaia leva mais de vinte anos a aturar os cromos locais de manhã à noite e os bêbados noctívagos pelas horas longas até fechar lá para as 3 da manhã. Divide os turnos com a sua esposa, a Dona Gabriela que para além de não se deixar nunca enganar nas contas tem a incrível capacidade de saciar a conversa com amigas em torno das cinco novelas do momento. É actor isto, e o outro ou a outra ou outro, numa algazarra que impressiona. E permitam-me, mas esta casa, é casa de homens. O Sr. José Carlos, que dá o nome óbvio à casa nasceu no Bairro Alto e guarda estas ruas no seu coração. Cedo se destacou nas actividades desportivas no Lisboa Clube Rio de Janeiro, com especial ênfase no boxe. Mas não se acanhe quem o julgo mau carácter ou parco em palavras. O Sr. José Carlos é um trato, um senhor que muito bem sabe receber quem o visita, e que não desperdiça nunca a oportunidade de demonstrar toda a sua cortesia para com menina ou senhora que na casa dele tome lugar. Aconteceu-me, em manhãs de glória, ainda não dormido, degustar na melhor companhia e defronte de um prestigiado diário desportivo, uma sandes de queijo aquecida, muito distinta da simples tosta. São manhãs de glória que surgem após noites de eleição. Subir tranquilamente o bairro com sentido ao 208 na Rua da Atalaia é um pouco diferente de sair pela porta verde afora e percorrer a calçada na busca de ganhar o dia.

Nasce o dia à janela, nasce a vidinha no café de baixo, no café da Fábrica Panificadora de São Roque, onde as miúdas gordinhas já me conhecem o gosto do pão quentinho com queijo e nunca com manteiga. O gosto pega-se, e embora este seja um amor antigo, sublinhei-o em alvoradas passadas no Bairro Alto. Mais à frente a meio caminho do Príncipe Real encontramos um dos melhores cafés por m2. A Pastelaria Príncipe Real oferece Pastel de Nata quente ou a escaldar, queques integrais com passas e um conjunto dos melhores salgados da cidade -uma delícia e no frigorífico está sempre um quarto de leite Vigor, gordo ou meio gordo.

Mas o local que mais frequento, seja Inverno ou Verão é no entanto o inevitável Quiosque do Sr. Oliveira. Partilhamos o nome, e partilhamos uma energia que é optimista á bruta.
Este quiosque é um autêntico anfiteatro de um one-man-show que diariamente acontece de segunda a sexta-feira. O café Tofa é bom, a simpatia e o ar radiante com o qual interage com os seus clientes colocam este homem numa classe à parte quando falamos da boa gente que atura as nossas ansiedades e vontades de colmatar os níveis de cafeína e nicotina. Aberto até tarde, abre cedo pelas 7:30 quando no Inverno a escuridão ainda é cerrada. Embora o prazer veraneante só venha em favor deste nobre estabelecimento, não deixo nunca de dar o giro e bebericar uma bica depois de um sorriso do Sr. Oliveira, mesmo que seja Inverno cerrado.

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