quinta-feira, 29 de maio de 2008

.há farra no Bairro #9

Não é excepção e já nem se restringe ao fim de semana. Hoje volvidos mais de 20 anos em que o Bairro Alto tem estado sempre em crescimento e findo um centenário de vida muito gozada nesta colina que parece dormir cada vez menos, a Festa começa hoje à quarta-feira e prolonga-se com exuberância até à noite de Sábado. As noites de Domingo pertencem aos especialistas, bares e clientes, a noite de segunda-feira faz lembrar tempos antigos e à terça-feira já se vêm umas belas almas encostadas à porta de um bar a fumegar num cigarro.
Não sou de todo um noctívago embebido em absinto, mas morando no bairro é evidente que aqui e ali tomei partido dos facilidades oferecidos como em noites de Domingo em que descobri ao acaso que um outro bar tem por especialidade agitar a noite tranquila de domingo, na Rua da Rosa O Bar do Bairro é exemplo disso. As Catacumbas oferecem música ao vivo de segunda a quinta-feira, e na noite de início de semana não há muito melhor para matar as horas. O Capela é um óptimo local para se escutar a música na tendência ainda fresca de quem veio da praça com um robalo da costa de olho cristalino. À terça-feira é para quem sabe, durante o fim-de-semana é aliás difícil demais conseguir por os dois pés junto do bar. A mesa e os pratos estão lá sob um estrado soberbamente barroco rococo. Aquele espaço fascina-me porque é mesmo velho. Reparem no chão, aquelas pedras pelas quais já deve ter inclusive caminhado o gado. A toada sonora é relevante no panorama do bairro e lembram-se os tempos de vanguarda na introdução do Electrotrash em conjunto com outras casas das quais destaco ainda o Purex de onde haveria de nascer a projecção de uma das metades dos Desperados residentes no Lux.

O Purex é aliás uma casa que sabe receber, sem desprimor pelos taberneiros gente que sabe estar faz sempre falta na farra boémia que é a noite lisboeta. O roteiro de casas ilustres passa sempre pelo Café Suave, uma pérola tanto efémera pelas suas melhores noites musicais como sólida no tempo pela atitude sempre positivamente leviana a convidar ao desleixo de uma noite perdida a ganhar conversa no sofá da montra. A exposição social de uma geração de sofá surfers meio niilista, meio exuberante nas suas esperanças poeticamente fundamentadas e nunca simplesmente infundamentadas. A Rua da Barroca é cada vez mais uma avenida 24 de Julho interina do Bairro Alto. Destaco o Rua, um bar onde a tónica refrescante está na letra certa, na música. Pratos a rodar são um bom presságio num meio onde a maioria dos bares continua a apostar no CDzinho de colectâneas e hoje na playlist farsola do IPod depois dos anos 80 terem sido rodados à volta de k7s – imperdoável. O Rua brilha e atrai uma geração mais nova que enche de esperança um cenário no qual os pratos e a boa música têm mesmo de vencer o dia de amanhã -é imparável a toada de bom gosto que temos de ganhar.
O Nylon no avançar da noite é uma opção que vai ganhando consistência e depois a perde na outra esquina, a ver vamos. O mesmo vale para o Majong que aposta no mundo visual e acaba por negligenciar a música, mas lá está quem lá vai, vai na busca de gente bonita – não se pode levar isso a mal. O Mexe perdeu o seu imenso brilho inicial, no término da cena Electroclash em que a fusão com sons mais quentes, em especial de Lucky esse, grande DJ de sorriso enorme. Novas iniciativas são bem capazes de me levar lá mais vezes. No Bairro estes são os nomes mais importantes para quem gosta de se perder em conversa, comigo. Isto claro está depois de boa comida que se busca em mesa alheia se não estivermos para pegar nos tachos e panelas cá no alto do terceiro andar a ver a malta a chegar ao bairro. O Caracol é uma instituição com preços discutíveis mas bom ambiente com algum requinte que não é presunçoso. O Primavera segue a mesma onda despretensiosa e de óptimo apuro de degustação. Mas infelizmente na larga maioria das casas come-se muito mal. Os japoneses são no entanto escolhas acertadas, caras mas certeiras tanto no que diz respeito ao Bonzai, o primeiro e original restaurante japonês da noite lisboeta e o mais recente Kinjolas com uma maravilhosa oferta de caipirinhas de saké à base de uvas, kiwis ou outras opções e uma fantástica sala de conveniência privada para grupos no primeiro piso.
Ficam as escolhas porque depois a noite tem de passar pelo cabo elétrico que leva do Bairro a São Paulo. Essa viagem tem o seu início na dupla Bicaense & Baliza. Amo as duas casas, cada uma à sua maneira. A Bicaense pelo seu espírito pioneiro, pela sua estética, pela simpatia da Susana a servir Daikiris e Mochitos únicos e ainda por bater. (Malta o 5 é uma casa à parte e não entra nesta guerra). A Bicanese ainda pelos tempos em que numa sala única se fazia a festa com o DJ exposto fora do balcão lateral sob duas paletes de madeira, à beira do seu público. Posição arriscada mas valiosa para quem esteve presente em noites de eleição. Mais ainda a Bicaense pelas lendárias noites de Jazz em colaboração com o Hot Club. Quartas-feiras em que o verão acabava por invadir o pleno Inverno. O Baliza pela simpatia e atitude sempre certeira a par de uma mão cheia de exposições que considerei verdadeiramente válidas no campo da ilustração e fotografia. Bom gosto sem manias, sem presunção – apenas bom gosto e aquela atitude.
Estas são as casas da minha perdição e em homenagem deixo lá uma boa parte do meu orçamento - como todos vós.

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